sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Infantil- Manoel de Barros



O menino ia no mato
E a onça comeu ele.
Depois o caminhão passou por dentro do corpo do menino
E ele foi contar para a mãe.
A mãe disse: mas se a onça comeu você, como é que o caminhão passou por dentro do seu corpo?
É que o caminhão só passou renteando meu corpo
E eu desviei depressa.
Olha, mãe, eu só queria inventar uma poesia.
Eu não preciso de fazer razão.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009


Às vezes...

"Às vezes tenho idéias felizes,
Idéias subitamente felizes, em idéias
E nas palavras em que naturalmente se despegam...
Depois de escrever, leio...
Por que escrevi isto?
Onde fui buscar isto?
De onde me veio isto? Isto é melhor do que eu...
Seremos nós neste mundo apenas canetas com tinta
Com que alguém escreve a valer o que nós aqui traçamos?..."

(Álvaro de Campos)

terça-feira, 24 de novembro de 2009


Da razão das coisas

Fico aqui desassossegada a pensar que,
quando o assunto é desejo de escrita,
Não há razão para se ter razão,
pois é só ouvirmos o vento soprar
e o silêncio calar
que os sentimentos assenhoram-se das mãos, tomam conta do espírito...
Momento inefável em que as letras movimentam-se apenas pela emoção
Na vida de um literato as palavras se traduzem em resquícios passionais de uma impressão viva, espécie de perturbação nata,
um sentir desordenado que abraça e envolve a carne
E a escrita passa a transgredir formas, cores, horizontes
Indefinidamente se define em
alma fora do corpo.
desejo desmedido.
gozo e desafio.
Um não eu perfeito permitindo que a mão conduza os sentimentos através das palavras,
dos verbos, dos traços e linhas dessa suave escrita, com sabor de amoras doces...

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Le bonheur de vivre d'aimer...


Amor Fati

"Quero cada vez mais aprender a ver como belo aquilo que é necessário nas coisas: - assim me tornarei um daqueles que fazem belas as coisas".
(Nietzsche, 2001, p: 187)

Em Nietzsche, na obra "A gaia ciência" fala-se em amor fati, termo originário do latim que designa amar o seu fado. Para o autor, ama-se o justo e o injusto, ama-se o amor e o desamor, isto é, amar o sofrimento e tomá-lo como um forte, tal aspecto também é sugerido pela filosofia grega dos estóicos.

"Amor fati (amor ao destino): seja este, doravante, o meu amor. Não quero fazer guerra ao que é feio. Não quero acusar, não quero nem mesmo acusar os acusadores. Que minha única negação seja ‘desviar o olhar’! E, tudo somado e em suma: quero ser, algum dia apenas alguém que diz sim" (Nietzsche, 2001,p:188).